sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Com moto de ida à modo de vida

Pelo retrovisor deixei uma rua de duas mãos. Na mão de ida, bati contra o farol de um carro sem luz e caí na mão de volta da rua. Neste momento levantei, sem ter clareza do que realmente havia acontecido, eu só queria viver. Eu não entendia o porquê de pessoas se aproximando e pedindo para me deitar, não via necessidade disso. Então, no meu segundo passo eu senti que algo incomodava o meu andar: não era pedra, não era buraco, era o meu pé. Então olhei e vi que algo havia me cortado profundamente, em três partes diferentes e não era mais segredo para ninguém os meus tendões, sua exposição foi abrangente. Minha perna também foi atingida, mas uma sutura ali já resolveria. Não me dei ao capricho de desmaiar por perder muito sangue, eu queria estar consciente de mim, mas sabia que a qualquer momento eu poderia ser mais frágil que minha pressão arterial.
Sempre que via uma ambulância eu logo pensava: “Nossa... algo de ruim acontece lá dentro.” E, naquele 11 de outubro de 2012, era eu quem estava “lá dentro”. Não é um lugar agradável, os enfermeiros querem te distrair e tentam fazer você pensar que está tudo bem quando você sabe que não está.
No hospital, eu só dizia que não queria perder meu pé e chorava em minutos de desespero. Depois da anestesia, fui  levada para o raio x e voltando para a emergência, duas artérias insistiram em estourar e levar minha consciência, mas não conseguiram e nem eu sei como. Fui para a cirurgia, com duas pinças no pé e cinco doses de emoção no coração. E eu sentia que, dessa vez, eu teria que adormecer e assim foi feito.
Acordar sem ter as ideias estruturadas na cabeça é um tanto quanto ilusório. No quarto, já com a perna e o pé enfaixados, ciente, me dei ao luxo de ver jalecos transitando pelo meu quarto e pelo corredor e aquilo me fez sentir bem. Meu pé estava ali e eu também. Não desejava nada além da minha recuperação: voltar para casa, se surpreender com as pessoas ao meu redor e delas ficar dependente. Foi assim durante 30 dias, eu não me importava em ter que fazer fisioterapia, se eu tinha cicatrizes e muitos pontos no meu pé, em ter que tomar banho numa cadeira própria. Claro que eu queria andar, às vezes o quarto me deixava vazia, mas nada desesperador. Eu reaprendi a dar valor nas pessoas e nos momentos. Eu reaprendi que somos vulneráveis. Eu reaprendi a ser grata com qualquer tipo de gentileza.  Eu aprendi que, além de viver, temos que sobreviver.
E, um ano após tudo isso ter se passado, estou aqui, sem limitações nenhuma em meu físico, sem o veículo de duas rodas que me agarrei na hora do acidente e com uma vontade grandiosa de viver.
Isso tudo pode parecer um mero clichê, mas tem certas coisas corriqueiras que fogem do nosso entendimento e só quando você se esbarrar com elas vai entender o quão profundas elas são.

                                                                                                  Priscila Signorini.

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