Sempre que via uma ambulância eu logo pensava: “Nossa...
algo de ruim acontece lá dentro.” E, naquele 11 de outubro de 2012, era eu quem
estava “lá dentro”. Não é um lugar agradável, os enfermeiros querem te distrair
e tentam fazer você pensar que está tudo bem quando você sabe que não está.
No hospital, eu só dizia que não queria perder meu pé e
chorava em minutos de desespero. Depois da anestesia, fui levada para o raio x e voltando para a
emergência, duas artérias insistiram em estourar e levar minha consciência, mas
não conseguiram e nem eu sei como. Fui para a cirurgia, com duas pinças no pé e
cinco doses de emoção no coração. E eu sentia que, dessa vez, eu teria que
adormecer e assim foi feito.
Acordar sem ter as ideias estruturadas na cabeça é um tanto
quanto ilusório. No quarto, já com a perna e o pé enfaixados, ciente, me dei ao
luxo de ver jalecos transitando pelo meu quarto e pelo corredor e aquilo me fez
sentir bem. Meu pé estava ali e eu também. Não desejava nada além da minha
recuperação: voltar para casa, se surpreender com as pessoas ao meu redor e
delas ficar dependente. Foi assim durante 30 dias, eu não me importava em ter
que fazer fisioterapia, se eu tinha cicatrizes e muitos pontos no meu pé, em
ter que tomar banho numa cadeira própria. Claro que eu queria andar, às vezes o
quarto me deixava vazia, mas nada desesperador. Eu reaprendi a dar valor nas
pessoas e nos momentos. Eu reaprendi que somos vulneráveis. Eu reaprendi a ser
grata com qualquer tipo de gentileza. Eu
aprendi que, além de viver, temos que sobreviver.
E, um ano após tudo isso ter se passado, estou aqui, sem
limitações nenhuma em meu físico, sem o veículo de duas rodas que me agarrei na
hora do acidente e com uma vontade grandiosa de viver.
Isso tudo pode parecer um mero clichê, mas tem certas coisas
corriqueiras que fogem do nosso entendimento e só quando você se esbarrar com
elas vai entender o quão profundas elas são.
Priscila Signorini.
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